A SIG Combibloc está iniciando a construção de sua fábrica de embalagens cartonadas assépticas no Brasil, na cidade de Campo Largo, no Paraná. O investimento de 90 milhões de euros até 2016 em uma planta local é considerado fundamental na estratégia de expansão da companhia no segundo maior mercado de embalagens cartonadas assépticas do mundo, calculado em cerca de 10 bilhões de unidades por ano. A fábrica terá capacidade total para produzir dois bilhões de embalagens por ano, e foi concebida em formato modular. A primeira fase será inaugurada no segundo semestre de 2011, pronta para produzir um bilhão de embalagens ao ano, em uma área construída de 12 mil m². Na segunda fase, a área construída deverá dobrar, atingindo 24 mil m², assim como a capacidade de produção.
Depois de atuar por alguns anos no mercado brasileiro por meio de um escritório de vendas, a SIG Combibloc iniciou um trabalho focado no país há cerca de cinco anos, com o objetivo de estabelecer um mercado, investindo na contratação de profissionais, na introdução de novos formatos de embalagem, em soluções de abertura diferenciada e na conquista de clientes.
Em entrevista à embanews Markus Böhm, membro do Board Executivo do Grupo e Chief Market Officer de mercados globais da SIG Combibloc, conta sobre sua experiência em mercados emergentes; ele atuou na implantação da SIG Combibloc na China, e sobre a operação brasileira.
Böhm nasceu na Alemanha, numa pequena cidade, chamada Kempten, em uma região muito verde e bonita. Ele deixou a Alemanha aos 18 anos, foi à Inglaterra, Estados Unidos e, depois, morou 10 anos em Hong Kong, onde iniciou sua carreira na SIG Combibloc. Fez literalmente uma volta ao mundo antes de retornar à origem: o campo e a produção de leite.
Embanews: Por quê a SIG Combibloc resolveu construir sua fábrica no Brasil neste momento?
Markus Böhm: Quando observamos o mercado global, vemos que o mercado brasileiro é um dos que mais rapidamente crescem; é o segundo maior depois da China, o que o torna extremamente atraente. Isso significa, até 2012, um crescimento de 1,5 bilhão de litros adicionais de lácteos UHT e outros 500 milhões de litros de bebidas não-carbonatadas, como sucos, néctares e bebidas à base de soja. Decidimos instalar a fábrica no Brasil para captar uma parte desse crescente mercado, que é bem expressivo, quando pensamos que representa hoje 10 bilhões de embalagens.
Embanews: Houve um longo tempo de preparo antes de chegar até aqui...
Markus Böhm: Sim, normalmente, quando a SIG vai entrar em um novo mercado, o primeiro passo é instalar uma unidade de vendas e algumas máquinas de envase. Estamos no Brasil há cinco anos; neste tempo instalamos uma série de máquinas e construímos uma base sólida de clientes. Quando atingimos vendas de 800 milhões a 1 bilhão de unidades, e estamos perto disso, variando um pouco de mercado para mercado, este é o momento que, em nosso entender, uma fábrica local torna-se economicamente viável. Chegar até aqui significa que temos clientes que acreditaram em nós, comprometeram-se conosco, porque estavam em busca de uma opção de fornecedor de embalagem de cartão. Mesmo sem considerar o investimento que está sendo feito na planta, o volume de recursos até agora destinado ao Brasil é consideravelmente alto; foi preciso pagar taxas de importação relativamente altas, numa operação subsidiada, para que essas embalagens chegassem aos nossos clientes brasileiros.
Embanews: Essa planta deverá suprir toda a América do Sul?
Markus Böhm: Num primeiro momento, a nova planta deverá fornecer suas embalagens também para a Argentina e o Chile. Mas, temos ainda muitas oportunidades de crescimento no Brasil. Queremos primeiramente otimizar o que está sendo investido no próprio País. Há um claro movimento de distribuição de renda e de inclusão social no Brasil, que faz com que o crescimento do consumo se concentre, cada vez menos, nas classes A e B, e se estenda pelas outras classes. Quando se começa a aumentar a distribuição de renda de um país, a primeira mudança que se percebe é a melhoria da alimentação. Vemos pelas estatísticas que o crescimento do mercado acontece muito mais entre os novos consumidores, entre pessoas que não tomavam leite UHT e passaram a consumir o produto, do que propriamente um aumento do volume de leite consumido.
Embanews: Por que a opção por uma planta modular?
Markus Böhm: É uma maneira de acelerar o início das operações. O primeiro módulo, a ser finalizado no segundo semestre de 2011 permitirá atender os nossos clientes e o segundo módulo será direcionado para produzir o volume que esperamos ganhar com o crescimento do mercado.
Embanews: Essa planta é passível de ampliação?
Markus Böhm: Ainda não tivemos a chance de conversar com a engenharia para saber se seria possível ampliar ainda mais a planta nesse mesmo local. Porque o terreno de 130 mil m², que é teoricamente grande, tem alguns platôs. O importante é que essa planta está estrategicamente posicionada para atender o grupo de clientes no Brasil, Argentina e Chile. No momento em que ela estiver operando com capacidade total, a ideia é avaliar se vale a pena expandir a planta nesse local ou em outra região.
Embanews: O senhor também participou da implantação da operação da SIG Combibloc na China. Poderia nos comentar sobre sua experiência nesse país, e as semelhanças ou diferenças com o Brasil?
Markus Böhm: A SIG Combibloc entrou no mercado chinês em 1992, e bem no começo, houve muitas semelhanças com o Brasil. Havia uma unidade de vendas e o fornecimento era feito através da Tailândia. O interessante foi que, originalmente, nossa estratégia estava toda desenhada para a expansão em bebidas não-carbonatadas. Rapidamente, houve um processo de adaptação de estratégia para um trabalho com foco também na área de lácteos. O chinês não tinha o costume de tomar leite, houve porém um grande investimento do governo chinês para ensinar o povo a tomar leite e transformá-lo num hábito, como um sinônimo de saúde, para toda a população. Em uma das vezes, ouvi o premiê chinês declarar que ele tinha o sonho de que todas as crianças chinesas tomassem pelo menos meio litro de leite por dia. Isso vem acontecendo, o que acabou tornando-se uma semelhança com o Brasil.
Embanews: Que outros tipos de produtos o consumidor chinês aprendeu a gostar?
Markus Böhm: Como o chinês estava aprendendo a tomar leite, isso também abriu a oportunidade para o lançamento de outros produtos à base de leite completamente inovadores. Por conta disso, o mercado chinês é um dos que apresenta o maior número de inovações. Pelo fato de que eles estão começando a consumir diversos tipos de produtos, estão abertos para experimentar o novo, diferente do que ocorre em mercados mais maduros, em que o consumidor está acostumado a um determinado tipo de produto. Um exemplo foi o projeto lançado na China de uma bebida à base de iogurte, com pedaços de nata de coco bem pequenos, que utiliza tecnologia SIG Combibloc e deu origem ao conceito do Drinksplus, lançado no Brasil, durante a Fispal.
Embanews: Como foi construído o negócio de rodução do leite na China, uma vez que não se bebia leite nesse país?
Markus Böhm: Eles construíram seu negócio de produção de leite em alguns anos. Importaram os animais de forma profissionalizada, identificando a espécie mais adequada para as condições climáticas do país. Isso foi possível porque na China atuam grandes companhias de leite, o que é uma diferença para o mercado brasileiro, muito mais pulverizado. Muitas das indústrias lácteas chinesas possuem suas próprias fazendas ou cooperativas para garantir o fornecimento do leite. Algumas chegam a ter 10.000 cabeças, o que dá uma ideia da escala.
Embanews: Como avalia a participação da SIG no mercado mundial?
Markus Böhm: Por ser uma empresa de origem européia, o primeiro passo na trajetória da SIG foi conquistar a Europa. Em alguns países, a SIG detém um grande market share, como na Alemanha, por exemplo, onde somos líderes no segmento de lácteos. Da Europa, expandimos para a Ásia, a partir da Tailândia e China; firmamos uma joint-venture no Oriente Médio, e agora, para o Brasil. O nosso objetivo é ter presença global. O nosso maior volume de vendas está na Europa, mas o maior índice de crescimento da SIG vem de países fora da Europa.
Embanews: E a presença da SIG nos Estados Unidos?
Markus Böhm: O mercado norte-americano é completamente diferente do que se vê em outras regiões; eles têm uma cadeia do frio muito bem desenvolvida, com um consumo muito alto de suco e leite frescos, que não são os mercados em que atuam a SIG. Mas, encontramos outras oportunidades muito interessantes, principalmente devido à tecnologia SIG Combibloc de envase de pedaços. Temos um crescimento expressivo nos Estados Unidos na área de alimentos, para produtos como sopas, molho de tomate, etc.
Embanews: Como a empresa se posiciona em relação à questão ambiental?
Markus Böhm: Todas as fábricas da SIG são certificadas pela ISO 9001, que normatiza sobre as boas práticas; pela HCCP, que garante a segurança alimentar, e pela ISO 14001, que cobre os aspectos ambientais. A nova fábrica já deverá nascer certificada, e todos os resíduos gerados deverão ser reciclados. Até o próximo ano deveremos desenvolver um parceiro que possa reciclar o resíduo que venha a ser gerado pela fábrica.
Embanews: Quais são seus desafios para o futuro?
Markus Böhm: O maior desafio é continuar a atender as expectativas dos nossos clientes. Por isso a SIG investe continuamente em inovação e tecnologia. Nossa área de desenvolvimento na Alemanha é muito capacitada, com um ‘pipeline’ de novos projetos, que recebem investimentos significativos, e é um dos pilares para continuarmos a atender os nossos clientes em suas necessidades de inovação. Porém, mais do que isso, a nossa proposta de valor é atender um a um os nossos clientes em suas necessidades; não podemos perder essa característica; passando de um atendimento individual para um massificado, mesmo com o crescimento. Porque é essa abordagem individualizada que os nossos clientes realmente apreciam; esse é um desafio.